Queerbaiting: Um guia

O que é, quando acontece, e porquê é tão, TÃO errado?

TV é, de fato, um assunto que eu gosto bastante de falar, juntamente com o universo LGBT. E um tema recorrente que tem irritado (e muito) os fãs não-héteros de séries de TV pelo mundo é o constante queerbaiting pelo qual os programas de TV tem nos feito passar. Vamos falar a respeito?

Afinal: O que é isso?

“Queerbaiting” em uma tradução livre pode ser chamado de “isca gay”, e nada mais é do que a criação de tensão sexual/romântica entre dois personagens declaradamente heterossexuais, sem a intenção de aprofundar essa história. Com isso, os grandes conglomerados televisivos atraem o público gay e os mantém assistindo seus shows, na esperança de que aquele enredo seja desenvolvido – como um peixe que fica preso no anzol (entendeu?)

Outro modo descarado e popular de queerbaiting é a insistência em criar uma falsa atmosfera de representatividade, colocando personagens LGBT secundários, com um plot vazio e servindo apenas de alívio cômico ou tendo sua personalidade e relacionamentos esteriotipados para mostrar que “olha, nossa série também possui personagens gays!!!!!”. Podemos dizer que essa é a versão televisiva do “não é preconceito, tenho até amigos que são!”.

Mas vem cá… Falando sério agora: Isso não é coisa da sua cabeça?

Olha, queria dizer que sim. Mas não, não é. Leve em consideração dois fatores muito importantes: o primeiro é que estamos falando de mídia. A principal função de um show de tv é vender – seja DVD’s, streaming, produtos licenciados – e comprovadamente o público LGBT é um dos que mais consomem – só no Brasil, o consumo desse público é 4 vezes maior.

Ao mesmo tempo que conseguem nos atingir emocionalmente, alguns programas mantém seu padrão “família”, para vender para um público de pensamento conservador. A extensão dessa questão pode ser vista até mesmo em séries que são vistas como progressoras mas, na realidade, ainda possuem marcas da tradicionalidade. “Glee” tratava de assuntos interessantíssimos para a comunidade – como a transexualidade e o bullying que gays vivenciam o tempo todo no ensino médio , mas ao mesmo tempo invisibilizava seus casais gays – Brittana e Klaine são dois dos shipps* mais populares e antigos, mas podemos contar nos dedos as vezes em que vimos eles agindo como casal (sim, estou falando de beijos aqui); além de colocar Quinn Fabray (Dianna Agron), personagem hétero para “experimentar sua sexualidade” com Santana em uma clara tentativa de aumentar a audiência do show, que vinha caindo.

E como vou ter certeza de que é queerbaiting?

Tem duas coisas que podem te ajudar a descobrir se, de fato, é queerbaiting: A primeira: trocar o gênero de um dos personagens e perguntar “se fosse projetado dessa forma (menino & menina), essa história teria uma leitura romântica?” Se sua resposta for sim, é queerbaiting.

A segunda são as constantes piadas sobre a sexualidade dos personagens ou que brincam com o fato deles agirem como um casal. Se você pegar uma série de frases de conversas de Dean e Castiel ou Quinn e Santana, perceberá que existe toda uma jogada de palavras que gera dubiedade na real relação que os personagens possuem.

E caso você fique em dúvida, é possível tratar uma amizade entre duas pessoas do mesmo sexo sem conotação romântica envolvida. Emily & Hannah (Pretty Little Liars) é um dos exemplos sobre a saudabilidade de tratar do assunto sem inserir uma tensão homoerótica desnecessária.


Você pode me ver reclamando de milhares de coisas nessa série, mas a amizade dessas duas não é uma delas.



Caso você precise de exemplos, selecionei alguns de series bem atuais:

Quinn Fabray – Glee
Rachel e Finn foram concebidos para serem um casal desde o primeiro episódio, tornando Quinn uma vilã automática – já que ela era a então namorada do jogador. Mas a adoração da comunidade LGBT e dos fãs de femslash com a personagem foi tanta que durante todos os momentos foi criada uma tensão entre as duas, chegando a parece em diversos momentos que a oposição da loira com o relacionamento da então frenemie era motivado por outros motivos que não recuperar seu ex-namorado.
Ryan Murphy, não feliz em criar essa tensão, consumiu o desejo dos fãs de ver Quinn (un com uma garota: durante a 4ª temporada, em que a audiência havia caído pela metade, ela resolve “experimentar” dormir com a melhor amiga, Santana Lopez, por curiosidade. Essa história, é claro, não teve uma resolução ou algum tipo de desdobramento: Só era sexy o bastante para as câmeras.


Tente achar uma conotação mais gay que essas duas em Glee e falhe miseravelmente.


Destiel (Dean Winchester & Castiel) – Supernatural
Desde o primeiro momento em que Castiel foi introduzido, acreditava-se que ele não iria ter nenhum par – todo aquele lance dos anjos não terem sexo e tudo mais – mas conforme as temporadas passaram, as interações com Dean foram ficando cada vez mais e mais dúbias.


Olá, meu nome é Castiel e eu sou 110% gay for Dean.


SwanQueen (Emma Swan & Regina Mills) – Once Upon a Time
Fora o fato delas dividirem um filho, Emma Swan e Regina Mills possuem ligações mais fortes retratadas durante as 6 temporadas de Once Upon a Time exibidas até o momento. Fora passar a impressão de que elas são um casal lidando com a separação e a guarda compartilhada, o próprio criador continua dando corda para os fãs, nunca tomando uma posição definitiva sobre a dúvida: elas foram ou não criadas para ficarem juntas?


Lesbian moms raising a child: Já vimos isso antes – mas ao menos elas ficavam juntas no final.


Sterek (Stiles Stilinski & Derek Hale) – Teen Wolf
Sterek foi um dos casos em que a torcida pelo casal surgiu da química incrível entre dois atores que foi aproveitada in-screen. Tyler Hoechlin e ‎Dylan O’Brien até mesmo brincam a respeito do shipp nas suas respectivas redes sociais, e isso foi integrado à série, com vários momentos de duplo sentido.


Precisava dessa cena? Não é a resposta racional, sim é a resposta emocional.


Rizzles (Jane Rizzoli & Maura Isles) – Rizzoli and Isles
Não dá pra escolher um momento só – já que a série É sobre as duas e a tensão é tão grande que o canal que exibe a série brinca com o fato do casal ter tanta torcida na internet. Mas, apesar do “nós também shippamos Rizzles”, o canal contrariamente continua não trabalhando um possível romance entre as duas, mas sempre criando material de divulgação que explora a tensão que rola.


Aham, TNT. Estamos vendo o quanto vocês shippam as duas.


É claro que o queerbaiting não se restringe à TV; muitos filmes e livros utilizam da tática, mas esse artigo focou em uma mídia de longa duração e que mantém pessoas focadas por muito mais tempo (anos, pra ser honesto). Em um mundo que clama por representatividade gerar esse tipo de situação mostra, no mínimo, um desrespeito à uma comunidade que se importa com os materiais lançados e a preguiça de trabalhar novos roteiros e fugir do esperado.