Por que “San Junipero” foi tão importante?

Se você não viu o S03E04 de Black Mirror, aqui vai uma dica: TEM MUITO, MUITO SPOILER NESSE POST!

Todo mundo falou e/ouviu sobre a grandiosidade de “Black Mirror”. A ficção especulativa britânica que é apresentada de modo antológico a sociedade contemporânea e o impacto de novas tecnologias nas nossas vidas caiu nas graças do público após os direitos serem adquiridos pela Netflix, que já adicionou 6 novos episódios à série, que já possuía 2 temporadas.

No último mês, vi críticas severas a respeito de “San Junipero”, que apresenta a história de Kelly e Yorkie. Muitas pessoas afirmam não ter visto o propósito do episódio e não entender a razão de tanto enaltecimento em uma história que foge dos padrões de Black Mirror, de certo modo. Por isso, trago minhas impressões de telespectador (e de veado) sobre o porquê darem tanta importância pra esse episódio específico. E ressaltando novamente: a impressão é de um telespectador, e não de um crítico. Críticas especializadas é em outro blog, não aqui.

Os anos 80 e a tecnologia.
Como afirmado anteriormente, “Black Mirror” é uma série tecnológica. Portanto, todos os episódios, apesar de não apresentarem nenhum tipo de data, supõe-se que se passem no futuro. Quando temos um episódio em que se espera futurismo se passar quase 30 anos no passado, é um motivo pra comemoração.

Toda a vibe impecável dos anos 80, desde as músicas, os cenários, as cores e, não menos importante, a moda. Quem viveu essa época pôde sentir um pouco da nostalgia (eu não senti, sou uma 90’s bitch), mas foi um marco importante – talvez com Fifteen Milions Merits e Nosedive, os episódios com as estéticas mais diferenciadas do universo da série.

Parece um grande clipe vaporwave – e a gente ama isso tudo

Yorkie, Kelly e as questões LGBT
Aqui vou ter que invocar a boa e velha empatia: a maioria das críticas indas à série vieram de heterossexuais que não entendem o porquê de um episódio que fala sobre o amor de duas garotas fazer tanto sucesso. Trago aqui um índice interessante que talvez possa clarear um pouco a mente de vocês: Só em 2016, tivemos a morte de 25 personagens femininas que se identificam como bissexuais ou homossexuais. Levando em consideração que a representatividade desse público é baixíssima, um show de tv que traz a diversidade e comemora isso sem matar seus personagens é algo que não é incomum.

Além disso, A própria história da Yorkie é encaixada de modo certeiro quando falamos sobre contemporaniedade e tecnologia: a garota vê em San Junipero uma forma de viver a vida que lhe foi tirada na juventude por conta da homofobia que ela viveu. Para a comunidade LGBT essa é e sempre vai ser uma grande história a ser tratada, principalmente enquanto nossa sociedade não evoluir à ponto de não precisarmos mais de plots que expliquem o que passamos na TV.

Em terceiro lugar e não menos importante: vemos a bissexualidade ser trabalhada de modo didático e não preconceituoso. Podemos ver que não se trata da busca desenfreada por dois gêneros; Kelly amou seu marido profundamente, e não lhe faltou nada no período em que estiveram juntos; ao mesmo tempo, pra ela foi possível amar Yorkie sem achar que algo faltava nesse relacionamento.

fan teory do tumblr: já parou pra pensar que ela está tão feliz por estar na chuva pois ela não sente essa sensação tem 40 anos?

Histórias de amor, no fim de tudo, são legais.
Esse é definitivamente meu lado romântico falando, mas preciso admitir: trazer um epísodio leve para uma série extremamente densa foi mais uma benção que uma maldição. Todo o clima de caos tecnológico é trazido, assim como os outros episódios, mas de modo que a construção da narrativa fosse mais leve.

Sem esquecer de citar a química entre as duas atrizes. Pra um episódio de 40 minutos, a história foi contada de modo lindo, sem deixar furos, com um encerramento que pode ser até lido como ambíguo: afinal, foi ou não foi um final feliz?

se você viu essas duas juntas e não consegue ficar feliz com as cenas de amor: assista o episódio novamente por que você não viu do modo certo.

E é isso. Apesar do erro da Netflix, cuja sipnose descreve “a amizade intensa entre duas garotas” (wtf?), o episódio foi um motivo de comemoração pra qualquer membro da comunidade LGBT por tratar sexualidade em uma série sem tirar o foco principal da mesma.

Quer acrescentar algo ou discordar do ponto de vista apresentado nesse post? Comenta aí embaixo e vamos transformar isso numa discussão saudável e linda – daquele jeito ótimo que a gente tanto gosta ❤️

até o próximo post!