O gay, o pop e o machismo

Rapazes gays costumam gostar de música pop (e de uma guerra entre divas).

De um modo geral, costumamos ser atraídos por esse gênero musical. Não, não tenho nenhum estudo para provar isso, só o meu (limitado) círculo de amizade. Beiramos à idolatria quando se trata de Cher, Madonna, Lady Gaga e Britney Spears. Consumimos freneticamente os produtos dessas mulheres, que colocamos em um arauto e tratamos como deusas – basta ver que existe uma hierarquia nesse universo, onde delimitamos os papéis a “rainhas” e “princesas”.

Ao mesmo tempo, faz parte da natureza humana agrupar coisas e definir lados. Nossos pais e irmãos mais velhos nos fazem indiretamente escolher um time quando crianças. Ao assistirmos um filme, não é possível não escolher um lado, seja o do mocinho ou do vilão. Na adolescência muitos de nós somos direcionados a levantar uma bandeira política, por que de um modo geral, nossos pais nos ensinam a acreditar em determinados partidos e legendas, não em candidatos. E nessa mesma fase da vida, aprendemos que se você gostar de uma cantora pop, deverá automaticamente detestar outra.

O mais recente caso de briga entre artistas foi entre Taylor Swift e Katy Perry. Taylor, que afirma que uma cantora pop “roubou” alguns dançarinos de sua turnê e compôs “Bad Blood”, que fala a respeito de traição entre amigas. Katy não deu uma resposta conclusiva a respeito do assunto, apenas afirmando que se alguém atentar contra sua integridade, é algo que as pessoas ficarão sabendo. Só foi necessário essas afirmações para ambas as fanbases estourarem. (Sim, eu ignorei a “briga” da Taylor e da Nicki por motivos de 1) elas se resolveram e 2) elas se resolveram. fim de assunto bjs tchau)

As brigas são antigas, a troca de farpas é constante e podemos destacar a rivalidade entre os fãs de diversas divas (alias, o Buzzfeed americano fez uma postagem que mostra como essas cantoras costumam gentilmente espetar umas as outras durante entrevistas). Mas o grande problema é que, quando atacamos as artistas, não falamos somente sobre sua qualidade vocal, a composição de suas letras e os arranjos das suas músicas. Para conseguirmos argumentos para diminuir a qualidade de alguém cuja profissão é cantar, precisamos ir mais fundo e falar a respeito da sua vida pessoal.

Taylor é constantemente chamada de vagabunda por ter tido vários namorados famosos; Christina Aguilera e Britney Spears já foi incansavelmente chamadas de gorda por conta de uma fase em que sim, estavam diferentes do que costumavam ser (papel que recentemente foi passado para Pink e Kelly Clarkson, que estão sendo alvo dos “preocupados com a saúde”, sendo que é evidente que elas estão saudáveis e felizes com o próprio corpo);  Lady Gaga é considerada fracassada por conta de um álbum que não foi bem sucedido, de acordo com algumas pessoas; Madonna velha demais pra continuar com a carreira em um mundo onde ser jovem é regra; Rihanna só uma drogada “v1d4 l0k4”e até mesmo Katy Perry com o seu estigma eterno de não ter um Grammy.

Apesar de considerada um ser quase superior para a comunidade LGBTI, seja por representar toda a feminilidade que muito de nós possuimos e da qual nos envergonhamos ou por criar canções que são verdadeiros hinos contra o preconceito e os constantes assédios que muitos sofremos diariamente (aqui posso citar Firework, Born This Way, Beautiful, Mean, Express Yourself, Brave e tantas outras canções que nos trazem força naqueles momentos em que ser diferente se torna ainda menos fácil), precisamos lembrar que elas são consideras apenas produtos. Para as gravadoras, elas representam números, que precisam ser maiores a cada single lançado, e para o público “geral”, elas são objeto de desejo. E o público que deveria não gostar dela, mas respeitá-la, auxilia bastante na perpetuação dessa imagem negativa que elas adquirem ao adentrarem esse mercado.

É compreensível você não gostar de uma cantora pop ou do gênero musical em si. Eu, particularmente, não sou fã da Madonna. Suas músicas não me emocionam, seu estilo de carreira não me apetece. Sim, já fui infantil e já julguei sua vida pessoal e sua idade, mas aprendi que música é música e que atacar gratuitamente a vida pessoal de uma mulher devido ao fato de que sua carreira não me agrada é o mesmo que perpetuar o discurso machista que tem como função diminuir as mulheres, e que esse mesmo discurso é basicamente utilizado pra diminuir minha sexualidade.

Muitos vão acabar esse texto se perguntando: Ok, qual o propósito desse falatório todo? O objetivo é, basicamente, mostrar o quão errado é contar com quantos homens uma artista dorme, quantos anos ela tem ou quanto ela pesa pois isso é extremamente juvenil, e não de modo fofo. Vamos deixar as divas brigarem e resolverem suas “tretas” entre elas – lançando ou não músicas para falar a respeito dos desentendimentos – mas, acima de tudo, vamos manter o machismo fora do pop, para que não se torne pop ser machista