(des)plugado

Crônicas de quem vive conectado.

7h40 é a hora que entro no metrô pra ir até o trabalho, e onde costumo passar pelo menos uma da minha manhã até completar o trajeto. Sou apaixonado por leitura, mas ler no transporte, pra mim, vem se tornando uma tarefa cada vez mais impossível devido a quantidade de pessoas que entram na mesma estação que eu.

Portanto, quando não consigo ler, estou mexendo no celular. E as possibilidades são infinitas.

Nesse espaço de tempo, checo o Facebook e descubro que um ex-colega de escola noivou. O Instagram me informa que minha última foto teve um comentário daquela amiga super especial que não vejo a bastante tempo. No Snapchat, vejo as fotos da noite de uma ex-colega de trabalho que estava numa balada que eu particularmente não curto. Dou bom dia nos grupos de amigos que participo no WhatsApp, e pergunto como todos estão. E quando percebo, chegou minha estação.

O mais engraçado é que a maioria dessas pessoas eu não vejo a pelo menos um ano.

E o dia passa. Converso com os colegas de trabalho e troco alguns links por Skype, efetuo minhas tarefas – mas sempre checando o celular. Troco algumas mensagens com o namorado, discutindo onde vamos comer depois da aula. Respondo alguns e-mails a respeito do trabalho – sempre evitando o telefone. Abro o Facebook e, olha só, mais uma pessoa acabou de noivar – a quantidade de “felicidades!” nos comentários é impressionante, e tento transportar essas congratulações para a vida real: imagino uma fila com aproximadamente 600 pessoas dando abraços nos noivos, apertando suas mãos e beijando suas bochechas.

É meio óbvio que só umas 100 dessas pessoas estarão realmente no seu casamento.

Acaba o dia no trabalho. Hora de ir pra aula, o metrô ainda mais cheio do que estava de manhã. Espremido dentro do vagão, me sobra espaço apenas pra uma coisa: mexer no celular. Edito rapidamente uma selfie antes de postá-la no instagram, respondo mais uma série de mensagens no WhatsApp, mexo no Facebook novamente. Pelo autofalante, somos informados que “devido a falhas técnicas, o trem está se movendo lentamente”. Vejo que o vagão continua cheio, mas imagino que se manter o livro próximo ao rosto ocuparei o mesmo espaço que estava ocupando ao mexer no celular. Abro o livro, e os olhares de reprovação queimam minha nuca. Me intimido e resolvo esperar o vagão esvaziar um pouco pra prosseguir com a minha história e, enquanto aguardo, volto para o celular e começo uma partida de Candy Crush.

É engraçado reparar que os olhares de julgamento se foram e que agora ninguém está incomodado.

Chego na aula atrasado, graças ao tal problema técnico do metrô. Revisão da aula anterior. Novamente, meu amigo não sai das minhas mãos – dessa vez, intercalo entre diversas conversas paralelas e atualizações no feed de notícias. Na barra de notificação, vejo o ícone do Messenger, onde deixo uma mensagem não lida – afinal, a revisão acabou e eu preciso prestar atenção na nova matéria.

Até o momento, troquei cerca de 10 palavras com meus colegas.

No caminho de volta até o metrô, a conversa é animada. Marcamos mais uma gravação de comercial e trocamos confidências sobre nossas vidas pessoais. Vou até a faculdade do namorado, onde encontro ele e os amigos e vamos comer alguma coisa. Naquele ponto, o celular está no bolso, e começa a vibrar insistentemente; minha mãe me manda uma SMS perguntando se voltarei pra casa. Respondo que sim, e seleciono entre a extensa lista de emojis mais utilizados a carinha que está mandando um beijo.

Tento me concentrar na conversa que está na rolando na mesa, mas uma parte do meu cérebro ainda está conectado na minha timeline.

Voltamos no mesmo ônibus. Conversamos a respeito do nosso dia; sobre as coisas que fizemos e que não fizemos, as preocupações e irritações que vivenciamos e que conseguimos resolver. Naquela hora, estou dedicado completamente àquela conversa… até lembrar que não respondi àquela mensagem estacionada na fila. Descubro ser de uma amiga super querida, me convidando para um evento aquela semana. Institivamente, confirmo presença e retomo a conversa.

Chego em casa, coloco um pouco de comida no prato que será requentado no micro-ondas, o celular no carregador e entro no chuveiro. Após o banho, deito com o notebook do meu lado e abro o Facebook novamente. Sei que não vai ter nada de novo no feed mas, ainda assim, preciso verificar. Mando um boa noite para o namorado e viro pra dormir – naquela noite, o computador divide a cama comigo, pois o nível de cansaço do dia me impede de descer da cama e guardá-lo em um lugar seguro.

Antes de dormir, agradeço pela tecnologia que me mantém tão próximo das pessoas que gosto, apesar de não vê-las com a frequência que gostaria.

Ou com frequência nenhuma.

Alexandre

Tem muito a dizer, na maior parte do tempo.