Autofagia emocional.

O ponto em que humanos e borboletas se cruzam.

Semana passada fiquei bastante pensativo a respeito de uma porção de coisas. Acredito que ter constantes caraminholas na cabeça e muito tempo livre devido às férias da faculdade auxiliaram nos meus constantes questionamentos e reflexões. E, me aproveitando desse mundo moderno em que vivemos (onde dúvidas como “por que garrafas d’água possuem prazo de validade” podem ser sanadas com apenas uma pesquisa ao Google) aproveitei para tirar uma dúvida que me surgiu: como nascem as borboletas?

O processo é sempre tido como algo lindo, tal qual o patinho feio que se torna cisne: a lagarta, desengonçada, se torna uma crisálida e após algum tempo rompe o casulo, saindo dele majestosamente. Ela chegou à fase final de sua vida e finalmente está completa. Mas a transformação é um pouco mais complexa que isso.

Quando está no ovo, a larva “protege” partes do seu corpo que lhe serão vitais na vida adulta – olhos, asas (que você pode não ver, mas já existem), pernas e etc. Então ela constantemente se alimenta de folhas até que um dia ela começa a tecer um casulo onde ela passará certo tempo se desenvolvendo. E é aí que a parada fica mais complexa.

Instalada no casulo, a lagarta começa o processo em que se derrete com enzimas similares às digestivas que possuímos, se tornando uma pasta rica em proteína (Calma, a intenção desse parágrafo não é te deixar com nojo, e essa explicação parcialmente degradante tem uma função que será descrita conforme a narrativa for se desenvolvendo). Após se tornar uma sopa ela começa a reagrupar as células “protegidas” e a tomar forma novamente. Esse processo pode ser classificado como autofagia, processo celular que consiste em digerir parte de si mesma.

Achei particularmente similar com o nosso processo de transição para a vida adulta. Não nos tornamos um líquido dentro de um casulo mas, fisicamente, desenvolvemos pelos, mudamos nosso timbre de voz e florescemos sexualmente, dentre outras tantas mudanças. Nenhuma dessas alterações fisiológicas que nos acontece é feita por meio da autodevoração. Nossa autofagia é completamente interna.

Emocionalmente falando, estamos sim em constante transição. Sempre buscamos remodelar nossos sentimentos para conseguir nos ajustar às necessidades pessoais e as necessidades da sociedade. Curamos preconceitos e desenvolvemos novos. Iniciamos novos vícios para substituir os anteriores. Nos decepcionamos com pessoas que amamos, e nos surpreendemos com as pessoas que não conhecemos bem.

Mas, ao contrário da borboleta, essa evolução nunca acaba. Trabalhamos sob tentativa e erro, por isso sempre vamos precisar nos encasular, reprojetar o que quer que esteja involuído internamente e redesenvolver, mesmo que pra isso seja necessário desconstruir.
E essa é a beleza de ser… humano.

Alexandre

Tem muito a dizer, na maior parte do tempo.