A “difícil” tarefa de criar campanhas que agradem a todos

Em um mundo conectado é difícil agradar e, nesses casos, criar uma situação de ambiguidade na publicidade pode ser um tiro no pé.

A agência AlmapBBDO é conhecida por ser uma das maiores agências brasileiras, famosa por atender grandes contas como Volkswagem , C&A e Bayer. Inclusive, ganharam um leão de bronze na última semana na França na categoria “Outdoor” no Festival de Publicidade de Cannes , pela sua campanha criada para a um dos produtos da cartela deste último cliente, a CafiAspirina. Mas, nas redes sociais, as reações foram extremamente diferentes do esperado.

Os anúncios, que brincam com situações que podem causar dor de cabeça, receberam 3 versões: uma que mostrava uma conversa sendo gravada, uma que mostrava um arquivo de texto e outra a gravação de um vídeo. A última foi amplamente interpretada como a gravação de uma sextape, que depois resultaria no vazamento da mesma (motivo pelo o qual a dor de cabeça seria causada).

O (polêmico) outdoor da campanha.

A problemática da peça reside no fato de que revenge sex é um assunto extremamente delicado. É de amplo conhecimento que as vítimas do vazamento de vídeos íntimos são em sua esmagadora maioria mulheres, que sofrem com as consequência da exposição. Só se lembrar da atriz Carolina Dieckmann, que em 2012 teve fotos suas vazadas e sua situação acabou gerando o projeto de lei que hoje carrega seu nome e que protege vítimas do vazamento digital.

A exposição da vítima é apenas a ponta do iceberg do problema. Além disso, ela precisa lidar com a culpabilização e o machismo que já estão tão intrínsecas na nossa sociedade, mas o intuito desse texto, acima de tudo, é falar sobre como a publicidade tem retrocedido e avançado constantemente – o famoso “deu dois passos pra frente e um passo pra trás”.

O grande erro da publicidade é esquecer que, na época atual, as minorias têm voz. Não existe mais a possibilidade de um grupo, por menor que seja, deixar passar qualquer tipo de dubiedade negativa. E uma vez que um coletivo se pronuncia (munido dos argumentos corretos) recebe a empatia e apoio de outros grupos. O fato é que as minorias, quando juntas, possuem grande poder, e podem fazer grandes mudanças.

O proprio sócio da Almap essa semana declarou que “Mesmo que uma peça não tenha tido a intenção de causar algo ofensivo, se ela causou rejeição em alguém já é motivo para reavaliarmos a ideia” . E é isso que a publicidade precisa se focar um pouco: empatia. Chame de frescura ou de mimimi, mas é fato comprovado: o mundo está mudando. E a publicidade precisa mudar com ele.