Tinder & Ghosting

(Ou: a geração que não flerta fora da internet e que some em seguida)

Ultimamente, muito tem se falado a respeito das relações humanas e como elas tem sido impactadas com o uso da tecnologia. Um tema recorrente que mostra-se importante pois somos pessoas que vivem conectadas e de fato somos diretamente influenciados pelos apps e outras tecnologias que aos poucos dominam nossos dias.

Dito isso, preciso fazer uma declaração: descobri recentemente que grande parte das pessoas não faz a minima ideia de como se flerta fora da internet (eu incluso). E a maioria dessas pessoas não fazem a mínima ideia de como proceder a um flerte bem sucedido. É aquela máxima: velhos hábitos são difíceis de ser quebrados. E, uma vez que a internet foi o primeiro lugar aonde pessoas com seus 20 e tantos anos tiveram contato com esse fantástico mundo de flertes, é difícil pra transpor essa mesma facilidade pro mundo real.

Aquele momento em que o crush retribui o interesse

Desde o saudoso Orkut, passando pelo ainda mais saudoso MSN e hoje em dia com o Facebook, esses foram o principais métodos que nossa geração arranjaram pra manter contato com as pessoas queridas – e por que não ter aquela paquerinha? Era saudável passar noites acordados trocando ideias com pessoas que nós muitas vezes não conhecíamos fisicamente, mas que estavam lá online todas as madrugadas pra bater um papo. E então, na tecnologia, pessoas muito tímidas ou com problemas pra começar assuntos finalmente viram um espaço saudável para interagir com pessoas e finalmente conseguir encontros. Isso foi um dos maiores benefícios – e um dos maiores males.

Ao mesmo tempo que vimos a facilidade em estabelecer um primeiro contato, também vimos a facilidade que é cortar esse mesmo contato. E uma das “síndromes” do século XXI é o chamado ghosting – o famoso desaparecer sem deixar rastros. A estrutura é sempre a mesma: duas pessoas se conhecem, rola um flerte – e se for em forma de meme já ganham pontos – trocam whatsapp e começam a conversar (ininterruptamente, devemos admitir) por um dia ou dois, quem sabe uma semana… a vontade de conhecer o outro desaparece. Sério, ela só some mesmo. E voltamos para a internet e recomeçamos o ciclo do zero.

projeto crush, tentativa 2455 #agoravai

Não estou dizendo que deveriamos investir de cabeça na primeira pessoa que aparecer (isso tende a soar como carência), mas parece que a velocidade em que perdemos o interesse é a mesma velocidade em que conseguimos um novo match no Tinder. É bom ter vários crushs e conversar com várias pessoas – inclusive sou adepto. O grande problema é que, com o passar do tempo, passamos a temer um contato um pouco mais físico, por assim dizer; depois do primeiro encontro, muitas vezes rola um retrocesso em que voltamos para o virtual até termos a coragem de avançar pra um nova saída. E sejamos honestos: o intervalo entre cafés deveria ser entre semanas, e não meses.

Enquanto vamos temendo conhecer um carinha que vai se transformar no Gasparzinho em uma ou duas semanas, acabamos não conhecendo ninguém – ou pior, entrar no jogo “eu me importo menos que você”, onde não há ganhos; só perdas. Estamos criando pequenos monstros do desinteresse e alimentando-os diariamente, e no final: tá todo mundo ficando louco.

E se for pra ser um fantasma, que seja o Patrick Swaze em Ghost, ao menos.